Lenda de Santa Iria – versão de impressão

A Cristianização dos povos bárbaros da Península Hispânica começou logo nos primeiros séculos da nossa era. A alta ldade Média é um período riquíssimo de testemunhos paleocristãos. Muitas das narrativas lendárias cristãs referem figuras e factos desse período de grande pureza mística e exaltado fervor religioso.

O pitoresco e popular bairro da Ribeira atrai a atenção dos locais e dos forasteiros para o sentido religioso e tradicional das suas festividades. Agosto abre o ciclo da sua força anímica com o Círio e o Arraial da Senhora da Saúde.

Trajados a rigor, em breque puxado por uma luzida parelha, os festeiros partem da Igreja paroquial de Santa Iria em romagem à Capela da Quinta da Saúde. Lugar que outrora foi Convento Franciscano e hoje é uma bem cuidada residência particular.

Preservar o património cultural é também manter vivas as festas tradicionais de cada comunidade, de cada aldeia rural, de cada bairro urbano. A Ribeira, o histórico e pitoresco arrabalde de Santarém, terra e gente de características muito peculiares, é uma freguesia que em si própria se orgulha de aliar o rural e o urbano ao seu Tejo.

A Ribeira esforcou-se sempre, através dos tempos, por celebrar a sua padroeira, a lendária Santa Iria. E também conserva bem vivo o arraial dos arrieiros em louvor de Nª Sª da Saúde. Aproxima-se mais uma grande Festa de Santa Iria em Honra de Nª Sª da Saúde.

Em homenagem aos homens e mulheres que mantêm astradições da Ribeira, vamos evocar, nesta série de lendas ribatejanas, a conhecida Lenda de Santa lria.

No ano de 637, o mês de Agosto fora excepcional quente. Num fim de tarde, os rubores do sol pareciam tingir de sangue a água do rio Tejo. A serene e formosa enseada do Pego aparecia como um luminoso lago sanguíneo.

Vindo das bandas de Nabância, (actual Tomar), um romeiro ajoelhou-se à beira do rio, em frente ao lugar onde, sete anos atrás, fora achado um maravilhoso túmulo de alabastro róseo, boiando qual baú de cortiça. Nesse túmulo, parecendo adormecida, a doce Iria aguardava a chegada de seu tio, o santo abade Célio.

O bondoso Célio aproximava – se acompanhado de uma multidão de cristãos. Em sonhos, ele tivera a revelação de todo o martírio de Iria, a mais amada das virgens.

Nesse sonho, ele vira Iria a donzela, bordando nos claustros do mosteiro das Donas de Nabância. Ajoelhado junto de Iria, estava o jovem Britaldo que, muito apaixonado, implorava a Iria que o aceitasse por esposo. Apressou-se a bela Iria a explicar que era impossível, pois fizera voto de castidade. Entregara a Cristo a sua vida. Triste, triste de morrer, Britaldo regressou ao seu castelo. Logo, adoeceu gravemente.

Na vida monástica, Iria rezava e trabalhava. Por inspiração de Deus pede à sua abadessa e vai falar ao moribundo Britaldo. Com doçura e firmeza convence-o de sua razão e diz-lhe que tenha fé. Britaldo confia em Iria e retoma as suas actividades como castelão nabantino.

Ao ver esta cena, em sonhos, o abade Célio louvou a Deus. Porém, a revelação seguinte foi muito cruel para o seu coração de homem santo. Ele assistiu ao assédio despudorado que o monge Remígio, professor de lria, faz à donzela. Ela recusa-o energicamente.

O malvado Remígio, com suas malas-artes d ealquimia, prepara um pó que mistura na comida da sua aluna. Entáo, o ventre da jovem cresceu como se estivesse grávida. Muitos a acusam. Ela proclama a sua inocência. Mas a calúnia chega aos ouvidos de Britaldo.

Louco de raiva, a sua paixão transfommada em ódio, Britaldo ordena ao seu criado Banão que vá matar Iria. Banão crescera junto de Iria, amava-a como a uma irmã.

Iria a mais amada, Iria tão desgraçada! Sem coragem para desobedecer a seu amo, Banão duvida da honradez de Iria. Ao alvorecer, surpreendeu-a, quando, pela margem do Nabão, ela rezava e caminhava em direcção à capela da Imaculada Conceição aonde ia meditar.

E tantas eram as suas preocupacões que nem sentiu os passos do malvado que de um só golpe a trespassou. Depois, tomado de remorso e de espanto quis fazer desaparecer o corpo casto de Iria, fazendo-o mergulhar nas águas do Nabão.

Tudo isto, o abade Célio contemplou no seu sonho. E mais Ihe foi dado ver. Os anjos depositaram Iria num túmulo róseo e milagroso. Era de pedra mas vogava sobre as águas dos rios como se fosse o berço do lendário Ábidis.

Os anjos acompanharam-na na descida dos rios até que para num pego doTejo, em frente do lugar de Seserigo, onde se levantava um grande penedo.

Após esta revelação, o abade fez divulgar o milagre e veio de Nabância a primeira romagem a Santa Iria. Era vontade de Célio levar Iria para o seu mosteiro. Queria glorificá-la e pedir perdão pelos martírios que a virgem sofrera. Talvez, por castigo divino, ninguém conseguiu tirar a bela Iria do seu sepulcro.

Apenas o abade recolheu uma madeixa de loiros cabelos e alguns pedaços do seu vestido. Reliquias que foram guardadas através dos séculos na Igreja que, em Tomar, tem por patrono Santa Iria.

Mas quem era o romeiro que se ajoelhava, sete anos após a morte de Iria, no seu lugar sagrado?

Acredita a gente simples que era o seu matador. Falam dele os “rimances” do Cancioneiro Popular Português. Almeida Garrett recolheu algumas variantes. Narrativas poéticas do povo que ama e canta os seus amores. ” Chamavam-me lria, lria afidalga./ /Por aqui agora, Iria a coitada./ /Andando, andando, toda a noite andava,/ /Lá por madrugada que me atentava…/ / Tirou do alfange, ali me matava;/ /Abriu uma cova onde me enterrava./ / No fim de sete anos passa o cavaleiro,/ /Uma linda ermida viu naquele outeiro.// Que ermida é aquela de tanto romeiro?// É de Santa Iria, que sofreu marteiro.// -Minha Santa lria, meu amor primeiro,// Se me perdoares, serei teu romeiro.// – Perdoar não te hei-de, ladrão carniceiro,// Que me degolaste que nem um cordeiro.”

A desaparecida Capela de Santa Iria, terá sido edificada sobre um penedo, no lugar onde o assassino de Iria terá aparecido a rogar o seu perdão. Em 1886, Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno, ainda refere a existência de Santa Iria, a pequena (o povo designava deste modo a capelinha primitiva, para a distinguir da Igreja Matriz, ainda hoje chamada pelos mais velhos, Santa Iria, a grande).

Situava-a junto à Capela de Nossa Senhora das Neves, edifício do Século XVII, que ainda mantém a sua traça, embora seja actualmente dependência de uma casa particular.

Parece-nos interessante esta versão da Lenda de Santa Iria, pois parte da narrativa é localizada num ponto concreto da Ribeira. Lugar de evocações milenares. Nele ressoa o nome de Santa Iria ou Santa Irene.

Nome tantas vezes proferido. Nome tão enraizado no coração e na fé do povo que com ele passo a denominar a própria cidade que de Scallabis passou a Chantirene, e em breve, a Santarém.